A hora da adaptação climática chegou aos municípios capixabas: resta saber se saberemos aproveitá-la
Num cenário global marcado por eventos climáticos extremos, o Espírito Santo se destaca ao garantir mais de R$ 400 milhões a prefeituras com o propósito claro: salvar vidas, proteger cidades e antecipar os impactos que não são mais projeções, mas uma realidade. O Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas, criado de forma inédita no Brasil em 2023, representa mais do que uma medida administrativa. É uma virada de chave.
Pela primeira vez, os municípios têm acesso facilitado a recursos voltados exclusivamente à resiliência climática – e sem a burocracia que costuma travar políticas públicas na origem. Os repasses diretos aos cofres municipais abrem espaço para obras urgentes, como contenção de encostas, drenagem de vias e construção de reservatórios para águas pluviais, ações que podem significar a diferença entre a vida e a morte em comunidades historicamente vulneráveis.
O mérito da iniciativa é claro – e sim, é preciso reconhecer a liderança política envolvida, desde a proposta do governador Renato Casagrande até a articulação de secretarias como a do Meio Ambiente e a do Governo. Mas o protagonismo agora deve migrar para as gestões municipais. É nas prefeituras que os projetos devem nascer, ser bem estruturados e, acima de tudo, serem pensados para as reais necessidades das populações locais. E o tempo urge: o prazo para envio de pleitos ao Fundo Cidades 2025 se encerra já nesta terça-feira.
Mais do que obras de engenharia, os recursos simbolizam uma oportunidade de reconstruir a relação entre cidade e natureza, rompendo com o ciclo de negligência, desastre e improviso que ainda marca muitos municípios. E para isso, planejamento é tão importante quanto verba.
Mas nem tudo são flores. Ainda persiste a dúvida: quantos prefeitos de fato compreendem o que está em jogo? Quantos saberão traduzir esse aporte histórico em intervenções eficazes, duradouras e democráticas? O medo é legítimo de que parte dos recursos se perca em projetos mal formulados, em soluções paliativas ou – pior – em clientelismos disfarçados de obras públicas.
A história recente do Estado já nos ensinou o custo da imprevidência. As chuvas de 2013 deixaram marcas profundas e revelaram a fragilidade da infraestrutura urbana diante do novo normal climático. O que temos agora é a chance de, enfim, virar essa página com coragem, técnica e responsabilidade.
Se bem executado, o Fundo Cidades pode se tornar referência nacional e internacional de gestão pública adaptativa. Se negligenciado, será apenas mais uma promessa enterrada sob o próximo temporal.

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