Eleições podem ser terreno propício para deepfake Técnicas avançadas de manipulação de produtos audiovisuais são consideradas evolução das fakes news e podem influenciar voto no período eleitoral

Pessoas reunidas em roda com celulares nas mãos
Disseminação de informações falsas pode prejudicar ou favorecer candidaturas / Foto: Shutterstock (capa)/GettyImages (interna)

As fake news passaram a fazer parte do cotidiano do brasileiro há alguns anos e acabam ganhando mais notoriedade no período eleitoral. Mas para esse ano, quando serão escolhidos deputados, senadores, governadores e presidente, o regime de desinformação recebe um ingrediente ainda pouco conhecido e que pode ter reflexos no pleito: as deepfakes.

Consideradas por especialistas como a evolução das notícias falsas, as deepfakes se caracterizam pela manipulação sofisticada de um produto audiovisual. Por meio desse processo tecnológico, é possível colocar o rosto e a voz de uma pessoa no corpo de outra para fazer com que alguém fale o que não disse ou aja de maneira que não se comportou.

Comumente usadas em paródias, há um terreno aberto para a aplicação dessas manipulações na campanha eleitoral. Assim como as fake news em geral, esse recurso pode ser utilizado de maneira a beneficiar o candidato, ressaltando qualidades, ou de modo negativo, visando prejudicar os oponentes. A diferença estaria na sua eficácia, avalia o coordenador de pós-graduação em Direito Digital, Walter Capanema.

Essa técnica é relativamente nova e passou a ser mais utilizada de três anos para cá devido à evolução dos algoritmos, explica o especialista em segurança da informação Gilberto Sudré. Segundo ele, as tecnologias disponíveis hoje permitem a modificação de imagens em movimento. Até pouco tempo atrás, ressalva, as fraudes eram restritas a textos, fotos e áudio.

Conforme explica, como o poder computacional está mais acessível atualmente, qualquer pessoa com um certo grau de conhecimento pode manipular vídeos, inclusive já há aplicativos com essa finalidade. Mas para que a alteração seja bem feita, é necessário muito conhecimento na área e uma máquina potente com uma configuração equivalente a de um computador para jogos, detalha.
ARTE

Impacto

O coordenador de pesquisa da Rede Nacional de Combate à Desinformação, José Edgard Rebouças, acredita que, por se tratar de um material mais profissional, as deepfakes podem exercer um poder ainda maior de persuasão dentro do universo da desinformação. Esse efeito é observado sobretudo em pessoas que já tradicionalmente são levadas pelas notícias falsas mais rasas.

“Mais preocupante é a mentira rasteira do que a profunda”, frisa. De acordo com Rebouças, se as pessoas já acreditam em informações falsas que não exigem nenhum tipo de sofisticação, quando chega ao nível de vídeos manipulados fica praticamente impossível questionar a realidade junto a esse público.

EDGARD REBOUÇAS
É nesse contexto que o advogado Walter Capanema questiona o “custo- benefício” dessa técnica, que exige capacidade computacional diferenciada. Para ele, o brasileiro vive atualmente em uma sociedade tão polarizada que muitas pessoas não precisam de algo tão complexo para acreditar, basta ter afinidade com a sua “bolha”.

Essa característica acaba contribuindo para a disseminação da desinformação. No geral, fake news reforçam mentiras nas quais muitos acreditam, embora existam os mais incautos, avalia Capanema. Para Rebouças, o fenômeno do imediatismo de “likes” nas redes sociais também se aplica na propagação de notícias falsas. Para piorar, não há compromisso em corrigir uma informação errada passada adiante.

WALTER CAPANEMA
A identificação das deepfakes pode ser um desafio em se tratando de uma manipulação bem feita, destaca o especialista em Segurança da Informação, Gilberto Sudré. Se esse for o caso, tende a ser desmascarado apenas por peritos forenses na área. No entanto, alerta para o conteúdo do material, pois muitas vezes pode retratar personalidade em uma situação totalmente fora do contexto.

O professor Walter Capanema chama atenção ainda para outro detalhe: a escassez de tempo para que a Justiça promova julgamentos em torno de fake news dentro período eleitoral, a mesma lógica se aplicaria aos vídeos modificados, ou considerados como tal. Sem dúvida esse material pode influenciar o eleitor, atesta o advogado.

Combate à desinformação

Na opinião de Sudré, não há como impedir a fabricação e disseminação das deepfakes e a melhor medida contra esse comportamento é ter agilidade para desmentir a informação e punir responsáveis. Tudo que é feito na internet deixa rastro, analisa o especialista, sobre aqueles que acham ser possível manter anonimato na rede mundial de computadores.

Além de organizar todo o pleito, a Justiça Eleitoral passou, a partir de 2020, a atuar contra a disseminação de notícias falsas. Por meio do site Fato ou Boato, internautas podem conferir a veracidade de histórias relacionadas ao processo eleitoral que circulam pelas redes sociais. O site conta com diversas agências de checagem.

Em 2021, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) instituiu o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação da Justiça Eleitoral, no qual está inserido o Fato ou Boato. No site do programa é possível ter acesso a materiais impressos e audiovisuais sobre mitos eleitorais, fake news, checagem e enfrentamento à desinformação.

Por Marcos Bonn, com edição de Nicolle Expósito 

Fonte:https://www.al.es.gov.br/Noticia/2022/09/43564/eleicoes-podem-ser-terreno-propicio-para-deepfake.html

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